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01

Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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Mas o pecado capital do mundo dos ganhadores, por cima de qualquer consideração, é a feiura. Como se lamentava D. H. Lawrence, feias casas, feios móveis, feias roupas, feias relações, feios modos: nada escapa ao reinado da feiura nesta era tão baixamente lírica.

 

Domicilio permanente do mau gosto, a arquitetura contemporânea é, sem exceção, feia, desabrida, uniforme, dura, fria, desumana e concentracionária. Arranha-céus espelhados, verdadeiras sedes do governo do dinheiro que nos olha sem ser visto; horripilantes colmeias de apartamentos; cidades infernais sacrificadas à circulação; dependência extrema de mobilidades motorizadas; casas saturadas de artefatos tecnológicos; lixeiras a céu aberto, shoppings, aeroportos, escritórios, e demais âmbitos totalitários onde todos os movimentos são controlados até nos menores detalhes, e os seres humanos submetidos a um condicionamento técnico extremo (falta de luz natural, ar condicionado, confusão entre dia e noite e entre estações, fixação da conduta, deslocamentos internos limitados, ausência de pontos cegos de vigilância); segregação física e fragmentação do espaço em guetos, de ricos ou de pobres; supressão da rua; aceleração da urbanização do campo; e tudo isso sem esquecer essas esplêndidas homenagens à imbecilidade humana que são os parques de diversões, onde estafados trabalhadores tentam distrair sua miserável condição procurando desesperadamente se divertirem, sem reparar em que “trabalhar é menos chato que se divertir” (Baudelaire).

 

Nem sequer aqueles espaços privilegiados de conversação que eram os cafés sobreviveram à queima, substituídos pelo tumulto de bares e boates. Dizia o próprio Baudelaire que não entrava num café sem certa emoção; que emoção podem sugerir antros que aniquilam a palavra, como as boates, onde nada romântico e delicado poderá jamais acontecer? Naturalmente, esses fósseis ambulantes que dormem com as bíblias operárias do século XIX em baixo do travesseiro, equivocando como sempre o inimigo, ignoraram o triunfo incontestável de um dos maiores infames da Modernidade, Le Corbusier, aquele suíço que com seu lema: “matar a rua”, fez de sua vida uma cruzada política contra os pedestres e a coletividade.

 

Se a morfologia física do mundo daria para escrever uma enciclopédia ilustrada de monstruosidades, a arte de vestir alcançou na vulgaridade atual o limite do sublime. No seu blog, Montaigne deplorava consternado “o descuido que se vê em nossos jovens no modo de levar suas roupas” (Essais, I, XXV); podemos imaginar que opinião lhe provocaria, em matéria têxtil, contemplar esses jovens atuais que se apresentam no espaço público como se fossem de acampada, a trabalhar numa canteira, ou acabassem de sair de um curral de dar de comer às galinhas?

 

“Certa maneira de vestir-se, escrevia Balzac, anuncia certa esfera de nobreza e bom gosto”; além disso, o refinamento na indumentária constitui uma manifestação exterior de um modo de entender a existência baseado na delicadeza, o gosto, o cuidado de si, e na deferência e o respeito aos outros.

 

Inimiga acérrima do conforto e da moda, a sutileza no vestir delata um desejo de distinção que nossos cibernéticos tempos ignoram; hoje a negligencia e o descuido não precisam justificar-se, e já ninguém desconfia, por princípio, como Baudelaire, de um homem mal vestido.

 

Arruinada esteticamente pela cultura do dinheiro, a arte de vestir ficou emparedada entre a falta de decoro e os estragos do prêt-à-porter. E não se pense que se trata de uma questão de “classe” ou de recursos financeiros, nem que os abastados escapam do fascínio pela vulgaridade. Baste lembrar a ocasião em que o genial Billy Wilder, já nonagenário, deu uma bronca em Tom Cruise por se apresentar no seu escritório de jeans: “no meu tempo as estrelas apareciam sempre impecáveis; mesmo que fossem comprar o pão”.

 

Respondamos sem dilação às previsíveis e infantis acusações de elitismo. Qualquer olhada nas fotos dos congressos operários de um século atrás nos mostrará que, inclusive para os trabalhadores braçais, não se vestir de qualquer maneira era, mais do que um exercício de estética, uma questão de honra e dignidade.

 

Analogamente ao desleixo da aparência, a degeneração dos códigos de comportamento e a total ausência de modos apenas provocam um murmúrio de desaprovação. É difícil acreditar nos extremos de incorreção e grosseria que alcançou a vida pública. “Não cumprimentar a quem cumprimenta, ou não voltar uma boa resposta a quem te fala, ou é de uma barbaridade extremada ou de uma descuidada molície. Que pouco é, e que pouco custa, cumprimentar, ser afável, ser bem criado, honrar o todos!”, refletia Juan Luis Vives. Porém, entrar sem permitir sair, se abalançar sobre cadeiras livres no transporte coletivo numa competição feroz, conversar num volume que usaríamos para pedir auxílio se nossa casa fosse presa das chamas, mostrar-se impertinente, impaciente e praticar a grosseria com o próximo, cuspir com preparativos acústicos, se assoar com aparato e pompa, converter a rua numa lixeira a céu aberto, fazer manicures de emergência em lugares públicos, sem mencionar exercícios de maior teor escatológico, sendo práticas simplesmente inadmissíveis, hoje não parecem vulnerar os códigos elementares de convivência, nem lesar o sentido de urbanidade, esse “desejo de recebê-la, e de ser tido por educado”, como a definia La Rochefoucauld.[36]

 

“Os homens, declarava Montesquieu, nascidos para viver juntos, nasceram também para se agradarem; e quem não observasse os usos recebidos, incomodaria a todas as pessoas com quem tratasse, e se desacreditaria de maneira que se tornaria incapaz de fazer nenhum bem”.[37] E Molière afirmava: “Se somos do mundo sempre se presume usar a polidez como um velho costume”. Mas em um mundo em que as novidades envelhecem em questão de dias, e os costumes são fabricados e imediatamente descartados pela publicidade, esses velhos costumes aos que se referia o francês perderam toda sua vigência.

 

Wilde, esse gênio, constatava que nos pobres “não se pode encontrar a menor graça de maneiras, o feitiço da palavra, a civilização, a cultura, o refinamento no prazer, a alegria de viver [...] A miséria e a pobreza têm tal força degradante e exercem efeito tão paralisador sobre a natureza humana, que nenhuma classe é jamais de fato consciente de seus próprios sofrimentos”.[38]

 

Com efeito, quem nasce e se cria num desses nichos horrorosos do subúrbio de qualquer grande metrópole, que pode saber da beleza, do bom gosto e de sensibilidade estética? Mas, insistimos, seria um grave erro pensar que a vulgaridade e carência de gosto é patrimônio exclusivo das camadas mais baixas da população. Os economicamente poderosos de hoje são tão indigentes em gosto, refinamento e modos quanto os mais necessitados. Como afirmava Flaubert da estupidez, é uma grosseria formidável, formidável e universal.

 

Goya, Los Caprichos, 24, No hubo remedio (El Prado, 1799)

 

 

O PODER DAS PALAVRAS

5Num magnífico estudo sobre os salões franceses do século XVII, Bendetta Craveri radiografa com brio e erudição um tempo em que o refinamento e a sofisticação eram os únicos códigos de conduta admitidos pelas altivas anfitriãs, as Madames, em redutos onde a grande violência e vulgaridade do mundo não tinham cabida.

 

Numa época como a nossa, onde os modelos de comportamento postiços, fixados desde fora, se sucedem a ritmo incessante, próximos muitas vezes da caricatura, resulta difícil não admirar a soberana naturalidade daqueles mundanos, que com um perfeito domínio dos gestos e das palavras interpretavam o único modelo que se tinham dado e no que se reconheciam. Como, além disso, não comparar com melancolia nossa percepção apresada do ‘tempo livre’ com uma cultura do loisir donde a arte, a literatura, a música, a dança, o teatro e a conversação constituíam uma escola permanente do corpo e do espírito?[39]

 

Evitemos perante tudo a demagogia: é obvio que o cortejo de personagens que desfilam pelos salões que descreve Craveri pertenciam em sua totalidade à classe nobiliária, com exceção de notáveis plebeus e burgueses que se singularizavam por uma inteligência brilhante (Diderot, D’Alembert, Voltaire, La Brùyere), e a quem sempre se lhes lembrou convenientemente o limite que constituía sua origem; em outras palavras, estes espíritos sensíveis integravam a classe dominante do Antigo Regime. Pelo mesmo motivo, em lugar de à cortesia ou ao heroísmo do gosto, poderiam ter-se dedicado ao canibalismo ou a emular a Genghis Khan ou Calígula.

 

Últimos vestígios de um universo que se desmoronava graças precisamente ao culto à razão incubado em seus salões, as Madames e seus frequentadores inquiriam no espírito humano com as armas do engenho, a perspicácia, a intuição e a inteligência, e sempre do respeito exagerado pelos bons costumes e a educação mais polida. E, adivinham quem era sua principal inspiração nessa tarefa? Efetivamente, ele mesmo, nosso querido blogger Michel de Montaigne, que tinha escrito seus Essais um século antes.

 

Com as questions, as maximes, as sentences, os mundanos descobriam uma literatura que indagava sobre o homem, sobre suas paixões, sobre suas debilidades, suas anomalias, uma literatura para a que não se requeriam estudos de retórica nem conhecimentos específicos. Ora, para poder praticá-la era preciso conhecer o ‘mundo’, sua superfície visível e seus mecanismos ocultos [...] Um saber do que aquela sociedade se orgulhava e que cultivava, para distinguir-se melhor, por meio de uma observação sistemática dos comportamentos, de uma penetração psicológica muito aguda, de uma constante psicanálise, de um exercício muito minucioso da politesse e da arte da palavra.[40]

 

A arte da palavra repousava certamente sobre a capacidade discursiva, mas também sobre a palavra escrita. Prolixas escritoras de cartas que constituíam autênticas homenagens à camaradagem, ao valor da amizade, ao amor, casto o carnal, assim como profundas reflexões sobre uma época e obras primas de eloquência, as Divinas sabiam que o papel exige um tempo diferente: é a solidão do autor frente a pensamentos que não se insurgem para sair tumultuosamente como no correio eletrônico. De maneira contrária aos mails, o papel discrimina entre os verdadeiros afetos e as exigências de seu banco, entre a propaganda e a confidencia de um amigo ou de um amor. O papel recolhe os matizes que o mail volatiliza e é um convite, como sabia bem Vives, para “tratar muito a pena, que é a melhor mestra do mundo, a que mais presta e melhor ensina a falar”.

 

Além disso, estava a delicadeza de procurar um papel digno do sentimento que se verterá sobre ele, o esmero na caligrafia, a estética do conjunto, do envelope ao selo, coisas que se perderam irreversivelmente. As cartas como expressão de um sentimento transmutaram em horrível monotonia eletrônica. Os historiadores terão, daqui em diante, que naufragar entre cordilheiras de mails peremptórios e burocráticos para encontrar um miligrama daquela natureza interior dos correspondentes que em outros tempos, não tão longínquos, teriam achado em umas breves linhas escritas numa carta a uma irmã, um amigo ou a uma paixão. Poderíamos fazer-nos uma ideia aproximada de temperamentos únicos como Voltaire se não tivéssemos preservado suas mais de dezesseis mil cartas? E quem chegaria perto hoje desse assombroso volume, quando o simples fato de levar um diário constitui uma raridade? Quem seria capaz de elaborar um texto com certa altura literária se nunca, apesar da quantidade de livros editados, se leu tão espantosamente mal como em nosso tempo?

 

Certamente, nenhuma época acolheu um número de leitores superior ao de não leitores, mas o fundamental será sempre o que ler e como. A carência atual de grandes literatos não constituiria em si mesma um problema; ao contrário, poderíamos aproveitar este deserto para ler tudo o que as gerações anteriores nos legaram. Já Diderot lamentava a enorme quantidade de livros publicados e a inutilidade da maior parte deles, e deplorava que nenhum homem conseguiria dar conta nem sequer dos imprescindíveis.

 

Mas nada disso possui nenhum interesse perante a hipnótica fascinação da trepidante inovação tecnológica que agora ameaça, nada menos, que com criar “bibliotecas virtuais”.

 

Ao comparar uma biblioteca virtual com a tradicional de tinta e papel, assinala Manguel, devemos lembrar varias coisas: que ler, para permitir a reflexão, exige com frequência lentidão, profundidade e contexto [...] que folhear um livro ou perambular entre as estantes está intimamente ligado ao oficio de ler e não pode ser substituído inteiramente pela leitura de um texto que se desloca por uma tela.[41]

 

Em permanente estado de transe tecnológico, os jovens não consideram os livros como amigos fieis, como tesouros permanentemente disponíveis, e muito menos, como afirmava Borges, como “uma promessa de felicidade”. O fetichismo eletrônico deslumbrou unicamente àqueles que não são, e jamais serão, leitores; isto é, àqueles que confundem os livros com uma sopa de letras encerrada numa máquina.

 

Um leitor atento é outra coisa, e não deve ser identificado com o cidadão que lê porque busca a facilidade e que lhe tirem do cotidiano, que procura “romances piegas para satisfazer a vida sentimental que não tem, romance noir para compensar a rotina diária, e romances pornô para se evadir, mas não procurará, em primeiro lugar, salvo raras exceções, nada que lhe ‘eleve o espírito’, lhe peça um esforço, provoque uma reflexão ou uma tomada de consciência e exija continuidade. Não devemos culpar ao homem por isso, mas à própria condição de sua vida, a todos os níveis e para todas as profissões”. A precisão no diagnóstico de Ellul parece pouco discutível, e todos os remédios resultarão inúteis se não se proceder a uma mudança radical das ancoragens mentais do homem moderno.

 

Faz falta, prossegue o francês, um esforço excepcional, uma eminente virtude e um sacrifício da vida familiar para se dedicar a leituras que não sejam de entretenimento. E posto que isso é o que o leitor deseja, por que não lhe ofereceriam o frívolo e o beatífico? Depois de tudo, os produtores de literatura não têm por que serem nem mártires nem heróis: fazem dinheiro. Para isso estão. E de passagem embrutecem um pouco mais ao leitor.[42]

 

Os idolatras dos e-readers prescindem sem cargos de consciência do livro porque, além dos motivos óbvios relacionados com a superioridade incontestável do papel e sua facilidade para a leitura, não lhes comove absolutamente imaginar o percurso de um exemplar com mais de um século de vida adquirido num sebo, real, não virtual, onde o livreiro lhes confiou as peripécias do último proprietário; não lhes interessam suas cicatrizes físicas, que delatam sua idade; não sentem a menor emoção com encontrar uma dedicatória do autor, um ex-libris, inclusive algum bilhete do antigo dono, nem no fato de associar um livro com um momento de sua vida, com um presente de algum ser querido, um acontecimento, uma viagem. Nada disso lhes comove porque são filhos da transparência absoluta e desconhecem o mistério.

 

Hoje já quase nenhum jovem ambiciona fazer uma biblioteca. Visitar a casa de um adolescente e encontrar mais de vinte livros razoavelmente juntos pretendendo ser algo parecido a uma biblioteca é um acontecimento que deve ser comemorado como o espetáculo inaudito que é. Encontraremos, com certeza, toda a panóplia de artefatos eletrônicos obrigatórios: milhares de CDs com os que tratam, com bastante sucesso, de perfurar e inutilizar seus pavilhões auditivos, DVD’s de filmes aptos para inteligências mínimas e desoladores shows de ídolos adolescentes, os cinquenta modelos de camisa de seus times favoritos lançados nos últimos três meses, Playstation 2, 3, 4, etc., ou telas que competem em tamanho com as do cinema. Encontraremos isso, mas não encontraremos bibliotecas.

 

In summa, é obvio que o homem da realidade virtual está a uma galáxia de distancia do espírito dos salões franceses. E o que resulta mais preocupante é que a progressiva aceleração do tempo nas sociedades contemporâneas está evaporando um sentido da tradição imprescindível para a forja de indivíduos capazes de responder a seus referentes históricos. Convertidos em apêndices do computador, os jovens de hoje ignoram tudo o que não tenha acontecido dentro do arco temporal de uns poucos anos, e em muitas ocasiões esse quadro cronológico não vai além de sua idade biológica. As novas tecnologias “conseguiram aniquilar o tempo convencional, recurso precioso da democracia. As decisões, como as armas, são de disparo rápido; o principal resultado é que, se bem pode haver uma transcrição, é menos provável que haja uma memória”.[43] A tirania da urgência favoreceu a proliferação de indivíduos que boiam num limbo temporal sem consciência de suas raízes nem sentido da continuidade histórica, cujo único interesse se cifra na satisfação de alguma necessidade banal, com frequência compulsiva. Sem bases intelectuais firmes, são incapazes de selecionar critérios de atuação nem de escolher o que mais lhes convêm. Se não sabem como aprender também não saberão que aprender.

 

A possibilidade de estabelecer um diálogo com a tradição humanista e seu incalculável legado de sabedoria tornou-se uma atividade profundamente desagradável e tediosa para indivíduos que não experimentam nenhuma necessidade de encontrar um sentido a sua existência, de questionar seus atos, suas escolhas, de ir além do próximo final de semana que provavelmente empregarão deglutindo toneladas de estupidez indizível sentados perante uma tela, em alguma viagem relâmpago em que tirarão milhões de fotos para mostrar aos amigos os lugares maravilhosos que não tiveram tempo de ver, ou consumindo barulho e corpos em alguns desses infernos a escala chamados boates. Refletir sobre essas questões exige certa distancia com o presente, recolhimento, meditação, silêncio, e uma mínima predisposição para o esforço intelectual.

 

Que máquina ensinará o gosto, o refinamento, a se valer no mundo, a proceder com honor, a ser galante? Que máquina mostrará como ser paciente e viver na espera antes de procurar a satisfação imediata? Que artefato nos inculcará a polidez, o respeito exagerado pelo amor próprio alheio? E qual nos dará a perfeita medida das implicações práticas, morais e estéticas de nossas ações? Justifica-se a ignorância do passado porque se da por suposto que tendia a isto, a este presente cativo que não consegue refletir sobre si mesmo, posto que não sabe de onde vem nem tem o menor interesse por saber aonde vai.