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01

Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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Platão afirmava que existiam duas classes de indivíduos, os verdadeiros filósofos, quem “gostam de contemplar a verdade”, e os “amantes dos espetáculos, os predispostos para a técnica e os homens de ação”.[29] Triste signo dos tempos: até poços séculos atrás, Gates teria sido considerado um protótipo destes últimos, um homem de nível inferior, um espírito vilmente prático, um simples técnico útil para ser consultado em casos pontuais e sempre relacionados com seu ofício, mais nunca um modelo de referencia. Hoje, são os espíritos práticos, os ganhadores como ele, os que orientam a incerta marcha do mundo. Porca miséria.

 

 

O HOMEM DE NEGÓCIOS

4Se há um fenômeno particularmente visível, inquestionável e inquietante na cultura contemporânea esse é sem dúvida o culto desvergonhado do ganhador. A mídia, a publicidade, as instituições e o aparente bom senso dos discursos populares consolidaram uma representação de vida coletiva cujo núcleo fundamental consiste em fazer dos indivíduos mercenários da fama e fanáticos dos lauréis.

 

Importados do decálogo de princípios definidores do empresário americano: empreendedorismo, audácia, agressividade e determinação, esse arsenal de atributos impregnou de tal forma nosso imaginário coletivo, que parece que quem quiser “ser alguém” na vida não tem mais remédio que servir-se deles para ir deixando cadáveres nas margens e ascender triunfante aos cumes do mundo do dinheiro e da popularidade. E não deveríamos nos surpreender, porque, não sentenciara Hobbes, com toda razão, aquilo do homo homini lupus? E não demonstrara Spencer que a “luta pela sobrevivência” se manifestava de forma mais evidente e implacável no plano social que no reino da natureza?

 

Não obstante, esquecemos com demasiada facilidade que o culto do homem de negócios foi em outra época motivo de vergonha pública. “Não te envergonhas de por teu cuidado nos meios para te deter o mais possível em negócios, reputação e honores, quando nada te preocupas do pensamento, da verdade e da alma, nem consegues imaginar fazer disso o maximamente belo”,[30] repreendia Platão a um “empresário” heleno. No universo grego os indivíduos que se entregavam à acumulação de dinheiro eram cidadãos desprezíveis que antepunham a riqueza aos interesses da polis, da cidade. Valor supremo para os atenienses, a forja e transmissão de um espírito cidadão era considerado capital para o virtuoso funcionamento da vida coletiva; de fato, instituíram a atimia, punição que impedia o exercício da cidadania, e o atimoi, aquele privado desse direito, se tornava um ser marcado e indigno, incapacitado para exercer seus direitos cívicos. Aqueles que, imbuídos de um louco desejo de riqueza, e entregados aos negócios (nec-otium, sem tempo para o ócio) prestavam mais atenção à esfera privada que aos assuntos da polis incorriam em idiocia. Acumulando dinheiro atraiam o desprezo de seus concidadãos e eram considerados “idiotas”, egoístas incapazes de autogoverno. “Medrem, medrem, amigos! Procuremos as virtudes após as moedas”,[31] comentava sarcástico Horácio; e um “grego” do século passado, D. H. Lawrence, confessava: “quando desejo ficar rico, então sei que estou doente / Pois, para falar a verdade, tenho bastante como estou. / Então, quando me pego pensando: Ah, se eu fosse rico-! / Digo a mim mesmo: olha! Não estou bem”.

 

Embora já não sobrasse nada do espírito democrático que brilhou em Atenas, essa percepção sobre o gosto corruptor pela riqueza sobreviveu em alguns poetas e literatos latinos. Assim, Juvenal escrevia:

 

Sim, estes de quem falo vis avaros / são pelo Povo em grande nome havidos, / são da fortuna artífices famosos, / que prosperar com grandes artes sabem. / Trabalham de continuo, e cessam nunca / de riqueza amontoar sobre riqueza. / Tal Pai que antolha do avarento a sorte, / vendo, pobre e feliz ninguém avulta, / seguir a mesma trilha exorta o Filho. / Elementos há próprios neste vício, / os quais se afana o Pai, que na alma imprimam / os filhos, lucros sórdidos buscando, / e em todo de ganhar desejo infrene.[32]

 

Curiosa subversão dos tempos modernos, hoje são os “vis avaros” e os caçadores de “sórdidos lucros”, os “idiotas”, quem ditam as pautas que definem o bom cidadão.

 

Mandeville foi o primeiro em denunciar o absurdo de considerar que os “vícios privados” deviam ser controlados em beneficio da comunidade, agregando que, pelo contrário, esses vícios estimulavam as “virtudes públicas”. Assim, os impostores que reclamavam restrições aos impulsos da cobiça,

 

combinaram com outros em chamar VÍCIO a todo o que o homem, sem consideração pelo público, fosse capaz de cometer para satisfazer algum dos seus apetites, se em tais ações vislumbrasse a mais mínima possibilidade de que fosse nociva para algum membro da sociedade e de fazê-lo menos serviçal para os outros; e em dar o nome de VIRTUDE a qualquer ato pelo qual o homem, contrariando os impulsos da Natureza, procurasse o bem dos outros ou o domínio de suas próprias paixões mediante a racional ambição de ser bom.[33]

 

Smith e Locke, entre outros muitos, alargaram esse meandro moral, que desembocou séculos depois no império incontestável dos “vícios privados”. Pouco ou nada surpreendente resulta hoje que “cada um se ocupe de saber o preço de suas mercadorias e que tão poucos tenham o cuidado ou a curiosidade para entender o verdadeiro valor de seu ser”, algo que ainda conseguia assombrar em A Dissimulação Honesta ao italiano Torcuato Accetto, outro blogger que compartilhou por uns anos o mesmo mundo que Montaigne.

 

O contrário do winner é o loser, o perdedor, essa figura condenada ao agravo imperdoável de não chegar o primeiro. Ridicularizado e fustigado sem contemplações, o perdedor é um fracassado sem esperança, um ser destinado à impotência, um permanente motivo de escárnio e de piedade. Ter vocação de perdedor é condenar-se ao desprezo alheio e a colecionar injúrias. “No meu dicionário não existe a palavra perder”, proclamam com orgulhosa complacência empresários e desportistas; “isso é de perdedores”, se afirma, com esplêndida arrogância, de tudo o que não aponte às vãs satisfações dos ouropéis públicos; “não gosto de perder nem quando jogo com meus filhos”, exclamam, cheios de si, indivíduos que se consideram pais responsáveis: “fulano nasceu para perder”, se afirma de quem se nega a ser um caçador de recompensas. Assim são os perdedores, indivíduos irredimíveis que se não fosse porque com sua existência justificam aos ganhadores deveriam ir preparando o copo com cicuta.

 

A cultura do perdedor como paria foi exacerbada até níveis extraordinários pelo desembarco cibernético. Duas décadas atrás isso já era evidente para uma inteligência sagaz como Postman, que tinha captado perfeitamente “a maneira de ser dos vencedores”, quem diziam para os perdedores que com o computador pessoal a média das pessoas podia “verificar o saldo no talão de cheques com mais exatidão, podiam acompanhar melhor receitas e fazer listas de compras mais lógicas”; o que ignoravam, nos dois sentidos do termo, os exaltados apologistas do computador era que, além de todas essas coisas estúpidas, eles “são seguidos e controlados com mais facilidade; são submetidos a mais exames; são mistificados cada vez mais pelas decisões tomadas sobre eles; muitas vezes são reduzidos a meros objetos numéricos. São inundados por correspondência inútil. São alvo das agencias de publicidade e das organizações políticas”.[34] Alcançada a magnificência no exercício do controle das mentes e os corpos, “cada casa é um império separado”, como escreveu Montesquieu;[35] mas, quem se pode importar com isso se podemos verificar o saldo na conta bancária, elaborar sobremesas tailandesas, ou comprar ventosas que aderidas ao corpo nos fazem emagrecer enquanto dormimos?

 

Poucos são os que resistiram ao influxo desta superstição do vencedor. Teríamos que procurá-los nessa província mágica da poesia: assim, Baudelaire se perguntava: “E se nos fosse indiferente ganhar ou perder?” Mas, às vezes, essas vozes surgem em lugares inesperados. Numa frase que bem poderia ter sido pronunciada por seu homônimo grego, um artista da bola chamado Sócrates refletia assim: “Que importa ganhar ou perder? O importante é ser feliz”. Sócrates, que jogou como viveu, perdeu uma Copa que deveu ganhar, mas nunca se lamentou. Na Espanha guardara-se eterna lembrança daquela seleção fulgurante que maravilhou por seu escrupuloso respeito pela bola e pela plasticidade do jogo, não pelo resultado. Um carnaval para os olhos, Sócrates, aquele magricela que se deslizava pelo campo com seu tranco de seda e tratava a bola como a uma amante, ensinou que o músculo jamais estará à altura do talento e a fantasia. Anos depois o Brasil ganhou a Copa e entrou no reino das estadísticas; mas a festa já tinha acabado e o legado de Sócrates foi substituído pela mesquinharia e os valores marciais: o fim justificava os meios, dizia, enquanto levantava a taça, o capitão, um pretoriano com pés de madeira que não estava para brincadeiras.

 

Infelizmente, o clima moral de nossa época não permite abrigar muitas esperanças de que a figura do perdedor com grandeza, incapaz de passar por cima de códigos de honra inegociáveis, e que, como Quinto Curcio, preferem “se queixar de sua má fortuna que se envergonhar da vitória”, constitua um exemplo de conduta para ninguém.

 

Hoje o Bogart de Casablanca passaria por um perdedor da pior categoria: o imbecil romântico; e quem estaria disposto a se identificar com esses maravilhosos losers de Peckinpah, um Warren Oates em Bring me the Head of Alfredo Garcia, Jason Robards, literalmente atropelado pelo progresso em The Ballad of Cable Hook, Steve McQueen em Junior Bonner, ou William Holden em The Wilde Bunch, ou também em Picnic, o esplêndido filme de Joshua Logan? Para quem seria um modelo o Eddie Nelson a quem com categoria insuperável deu vida Paul Newman em The Hustler, do delator Rober Rossen? Quem se refletiria no próprio Newman quando no filme do mestre Lumet, The Veredict, em seu papel de Frank Galvin, um advogado decadente e autodestrutivo, se apresenta no escritório dum cardeal disposto a aceitar uma forte soma de dinheiro para abafar o caso de uma jovem a quem os médicos de um hospital católico tinham convertido num vegetal num caso de negligencia quando estava dando à luz, e contra seu próprio interesse diz serenamente: “vim aqui para tomar seu dinheiro; mas não posso aceitar... porque se o pegar, estou perdido”? Poderiam essas múmias tecnológicas ou esses precoces aspirantes a Tio Patinhas compreender por que “estaria perdido”, se com aceitar a grana acabava com todas suas preocupações?

 

Quem com menos de trinta anos se emocionaria com Jack Lemmond em The Apartament; com Alan Ladd em Shane; com Lee Marvin, Burt Lancaster e Jack Palance em The Professionals; com Kirk Douglas em Lonely are the brave, no papel de um inadaptado tecnológico, que ele sempre considerou seu filme favorito? E que dizer do papel do John Wayne em The Man who shot Liberty Valance, ou desse adorável velho da sublime The Straight Story, do habitualmente irritante David Lynch, que a risco de sua precária saúde se lança à estrada para percorrer centos de quilômetros numa ceifadora com o fim de visitar ao seu irmão doente com quem não se fala há anos? Mas, que pode importar-lhe aos jovens de hoje toda esta grandeza moral quando sua única preocupação consiste em não perder a estreia da última entrega da saga de repelentes vampiros adolescentes ou o último filme de um mauricinho aprendiz de bruxo?

 

Voltando ao nosso blogger galo, numa entrada antiga encontramos uma severa censura da “ambição veemente de sair vitorioso, lá onde seria mais natural sair vencido, pois a primazia singular por cima do comum das gentes não diz bem de um homem de honor tratando-se de coisas frívolas” (Essais, I, L). Eis ai, em poucas palavras, a clave do assunto: a questão principal não reside em ganhar ou perder, mas na natureza do empreendimento. Se se trata de uma empresa sem altura, participar já é uma garantia de fracasso. Empenhar a alma na consecução de fortuna material nos obrigará a negociar com Mefistófeles, a adaptar-nos à cultura de cassino, a ser homens prosaicos, e pouco importa que a consigamos ou não.

 

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