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01

Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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A inclinação do Homo Technologicus é a de possuir um profundo conhecimento de praticamente tudo, exceto do imprescindível; carente da menor curiosidade intelectual não ignora nada, salvo o necessário. Atrofiado por horas de consumo digital compulsivo se torna crédulo, inautêntico, obtuso, e esquece que o segredo para interpretar o mundo e dar sentido a sua própria existência é o mesmo desde que o homem se dotou de razão: a contemplação, a reflexão, o estudo, a perseverança, o diálogo e a experiência. Que poderá ele responder aos versos de Shelley: “Espírito, beleza que consagra / com seu lume o humano pensamento / sobre o que resplandeces, onde você foi”? Seguramente entraria na Wikipédia para ver onde foi.

 

Por outro lado, resulta arrepiante o espetáculo das associações de pais exigindo a invasão da cibernética nas escolas; quando essa exigência, compartilhada entusiasticamente por professores, burocratas estatais, e essa massa amorfa chamada “opinião pública”, tiver se materializado, e todo o espaço escolar se tenha informatizado, estaremos em condições de certificar definitivamente a morte da cultura da paciência e da contemplação, atropelada pela agitação frenética que impedirá todo pensamento abstrato ou conceitual. Em todo caso, não devemos esperar pedagogicamente nada desses pais que exigem inundar as escolas de computadores; aliás, não devemos esperar nada deles em nenhum sentido, pois “basta ver o que eles fazem e que gênero de vida levam” (Pico della Mirandola). Após serem instruídos por décadas de terrorismo televisivo, trabalho compulsivo e dependente, oceanos de diversão ultrajante, convertidos em adoradores desse suntuoso ferro velho tecnológico que querem endossar às escolas de seus filhos, que milagre lhes outorgaria um pouco de sensibilidade e de perspicácia?

 

“Ouvi assegurar a pessoas inteligentes, que os colégios onde recebem a educação (seus filhos), dos quais há tantíssimo número, os embrutecem e adulteram” (Essais, I, XXV), mas nossos pais não se preocupam por essas inanidades, e longe de se perguntar qual é a verdadeira função desses presídios infantis, consentem em parafusar seus filhos na frente de artefatos com os que possam “interagir” de maneira “dinâmica”.

 

Pouco se importam com que o prefixo latino inter, interceder ou mediar, tenha aqui um uso corruptor, posto que concede à máquina o papel de intermediária entre um ser vivo dotado de inteligência e um sistema eletrônico baseado em códigos binários, ou seja, códigos com os que operam mamíferos menores, como os ratos; e não compreendem que um computador é uma máquina confeccionada para ordenar, classificar, computar, de uma forma mais veloz, e que, em consequência, como o resto de máquinas, pode “agir” dentro de um arco limitado de opções, como esses sofisticados artefatos que opõem aos grandes mestres do xadrez. O que nunca, jamais, fará uma máquina é pensar, porque carece da faculdade de razoar.

 

Nada disso lhes parece um escândalo, e pouco se importam com que a educação possa outra coisa que preparar carne de canhão para essa enteléquia do mercado, algo assim como ser capaz de elucidar

 

que coisa é saber e que coisa ignorar; que coisas sejam o valor, a temperança e a justiça; a diferença que existe entre a ambição e a avareza, a servidão e a sujeição; a liberdade e a licença, quais são os caracteres que reveste o sólido e o verdadeiro contentamento; até que ponto são lícitos o temor da morte, a dor e a desonra. (Essais, I, XXV)

 

Impossível evitar a tentação de pensar que Bloy se referia a estes pais quando afirmava: “No que diz respeito à sua ignorância, esta supera todo o imaginável. Nem sequer podem se formar uma ideia geral e devem viver exclusivamente sobre seculares lugares comuns que leem aos seus filhos como novidades. Trevas sobre os sepulcros”.[28]

 

Tomemos o caso de um dos pais mais mundialmente reputados para ver claramente como nossa cultura persegue com fruição a fabricação desses seres ignorantes cujo desconhecimento os converte em prejudicais e mais ou menos vergonhosos aos que se referia Diderot. Tempo atrás, o Congresso americano decidiu convidar Bill Gates, um homem admirado por dois séculos sem ser absolutamente admirável, para expor sua opinião sobre as causas e consequências da bancarrota do sistema escolar público dos Estados Unidos. Como reconhecia o guru informático, solucionar esse estado de prostração devia ser uma prioridade para a nação, mas não porque as crianças não tenham a menor ideia de quem foram Platão ou Aristóteles, ou porque os alunos universitários consigam um título sem ter lido um livro completo; nem sequer porque redijam com a habilidade de vassoura e possuam uma capacidade expressiva comparável com a de um saca-rolha.

 

Goya, Los Caprichos, 30, ¿Por qué esconderlos? (El Prado, 1799)

 

Não: na realidade não era por coisas tão irrelevantes pelas que o senhor Gates se apresentou no Congresso; o verdadeiro motivo residia no seu grande desassossego com o fato de que o sistema de ensino público não consegue formar os suficientes técnicos e engenheiros informáticos competentes para satisfazer as crescentes demandas de Silicom Valley, o que está acarretando a necessidade de importar jovens engenheiros da Índia, debilitando, de passagem, o papel dos Estados Unidos na global economy.

 

Segundo este prestigioso humanista, quantos mais técnicos adestrados manufaturarem as escolas e as universidades, mais e melhores possibilidades haverá de que a técnica encontre soluções para todos os problemas que ela mesma criou. Esse é o (pseudo) argumento fundamental: precisamos mais tecnologia, não menos, e a escola deve cumprir com seu papel de produzir técnicos, não indivíduos autônomos.

 

É sintomático que a esta altura do campeonato, esse entusiasta do “mundo sem papel”, (exceto o das notas, como aponta com malicia Manguel) que é o senhor Gates, ainda confunda “livre mercado” com regimes oligárquicos de capitalismo tecnologicamente avançado, e desconheça, talvez porque ele mesmo é um desses homens prejudicais e vergonhosos de Diderot, que Estado e Mercado são entes antitéticos que se excluem mutuamente. Quando menciona o “mercado”, refere-se a um espaço de controle totalitário das grandes corporações, como a mastodôntica que ele fundou, que instrumentalizam o Estado em seu único benefício, e hipertrofiam o desenvolvimento tecnológico para rentabilizar ao máximo suas transações. Não existe nada parecido a um “mercado”, pelo menos nas transações verdadeiramente relevantes, do mesmo modo que é absurdo pensar que é “livre”. Acaso lhe foi consultada aos cidadãos a suposta necessidade de invadir de computadores e demais chocalhos tecnológicos os lares particulares? Obviamente não, pela simples razão de que nenhum filho de vizinho precisava deles; só depois, quando veio em auxílio dos fabricantes a delitiva atividade da publicidade para percutir a necessidade, os cidadãos resolveram declarar seu amor à máquina.

 

Contudo, o mais significativo dos comentários de Gates é que quando proclama a centralidade do “mercado” na vida social, está afirmando que os princípios que propaga, a saber: concorrência, pragmatismo, utilitarismo, astúcia, cobiça, e por cima de tudo, irresponsabilidade, são um espelho dos códigos que devem reger o mundo. Essa abstração do “mercado”, e só ela, determina o que é bom pelo simples fato de ser útil, mais concretamente, útil para ser vendido. Esse “mercado” exige, e configura ao mesmo tempo, um determinado perfil humano que privilegia o objetivo de se enriquecer por cima de qualquer outra consideração intelectual ou moral. Em consequência, o único critério que deve comandara formação dos jovens, é a utilidade.

 

Em vista do anterior, não deveríamos nos estranhar que o senhor Gates esteja avaliando a possibilidade de instalar um reator nuclear na China alimentado com urânio enfraquecido, o mesmo material extraído de um complexo processamento com o qual o exército de seu pais revestiu os mísseis com os que bombardeou impiedosamente creches, escolas, orfanatos e hospitais no Iraque, provocando uma hecatombe de proporções inimagináveis entre a população civil. Nada detém a este filantropo nuclear, nem sequer geografias do horror como Pensilvânia, Chernobyl, ou Fukushima, alertas apocalípticas sobre a faústica ilusão de domínio absoluto sobre as forças da natureza, que ele toma alegremente por lamentáveis contrapartidas do inegociável progresso tecnológico.

 

Da certa vertigem, e muita pena, pensar o longe que está tudo isto daquele conceito de Paidéia grega, ciência do homem que combinava a excelência do oikos, da vida privada, e a paixão pela ekklesia, pelo bem comum, sempre num marco de prudência e temor pelos limites. E como não sentir inveja daquela Tropheia, o ensino para os mais novos, que consistia exclusivamente em comer, brincar e dormir, quando assistimos, ainda por cima satisfeitos e divertidos, ao espetáculo arrepiante de bebês com computadores de “brinquedo” entre as fraldas?