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01

Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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Ocultamos os signos externos da morte porque nos recusamos a aceitar que “teremos que dormir uma única noite perdurável”,[22] obliterando assim que sem essa premissa elementar uma sociedade não pode estabelecer nenhum projeto coletivo, posto que aceitar sem reservas a própria transitoriedade constitui a condição básica para a sensata aceitação do resto dos limites. Mas talvez esse querer viver mais, e não melhor, encobre também um temor enraizado mais fundo ao taedium vitae, ao ennui baudelaireriano, ao pânico de uma vida estacionária, ou seja, a toda vida não automatizada. Portadores da angustia de não pertencer a nenhum presente, avançamos sobre o peremptório e não conseguimos deter nossa inércia porque cogitamos essa possibilidade com a soçobra do piloto que vê na reflexão a garantia de hecatombe. Resultaria cômico, senão fosse dramático, comprovar como toda nossa civilização se erige sobre os pilares de uma mecanização cujo único fim é matar o tempo sem que nos demos conta, em distrair o tédio, enquanto esperamos uma morte que dissimulamos.

 

 

A FRAUDE CONSIDERADA COMO UMA CIÊNCIA EXATA

3A consolidação da sociedade digital veio acompanhada, como acontece em cada período de ofensiva tecnológica significativa, de uma ambiguidade fundamental que se converteu no último refúgio das naturezas bem-intencionadas dispostas a amortecer o impacto das novas imposições e a reconhecer que com discernimento e mesura seus aspectos mais nocivos podem ser driblados. Esse elemento ambíguo é, claro, o argumento do “duplo uso”, o favorito dos ingênuos que acreditam que o sistema de domínio técnico oferece o antídoto junto com o veneno.

 

Segundo um lugar comum esmagadoramente dominante, a máquina é susceptível de ser usada “bem” ou “mal”. A diferença entre um uso e outro depende exclusivamente do usuário. Esta ilusão, na que se precipitou de forma suicida o movimento operário clássico, é tão antiga quanto a tecnologia própria do capitalismo.

 

Numa crítica pioneira sobre a televisão, Jerry Mander antecipava que a seus consistentes argumentos contra o artefato per se, “a maioria dos americanos, de esquerda, centro ou direita, retorquirá que toda a tecnologia não passa de um instrumento neutro e benigno, de uma ferramenta usada desta ou daquela maneira conforme as mãos em que cai”. Não obstante, se apressava a responder Mander, “uma dada tecnologia não pode ser usada mal ou bem; não existe algo de intrínseco na tecnologia ou nas circunstancias do seu aparecimento capaz de determinar o seu uso, bem como o controle ou os efeitos que exerce sobre a vida dos seres humanos ou as formas sociais e políticas que nos rodeiam”.[23]

 

Efetivamente, não existe nenhuma opção de uso diferente daquela que vem aderida à máquina, mas antes de entrar nesse argumento, é preciso esclarecer um mal-entendido. “Bem” e “mal” são termos que pertencem à esfera moral, e, portanto, não têm absolutamente nada a ver com a técnica, domínio da eficácia, a objetividade, e o máximo rendimento. “Bem” e “mal” não pertencem a esse vocabulário porque as premissas e os objetivos da técnica são de ordem prática, não moral. O desenvolvimento técnico se orienta à satisfação de necessidades que foram criadas dentro de um sistema geral que engloba o conjunto da técnica anterior, e que condicionou inexoravelmente a subjetividade e o comportamento humanos. As novas tecnologias subsomem o conjunto de toda a técnica disponível e não constituem um produto isolado sem conexão com todas as descobertas precedentes; portanto, é absurdo pretender desligar sua existência do legado de opressão técnica propiciado pela consolidação das representações do mundo caraterísticas do capitalismo.

 

A tecnologia, em qualquer período histórico, nunca admitiu senão um único uso, aquele que está em harmonia com o espírito da época que a engendrou, um espírito que, por sua vez, a tecnologia mesma contribui a forjar. A cogitação desta possibilidade de usos diversos é rigorosamente falsa, e prova “que não se compreendeu nada do fenômeno técnico, em que todos os elementos estão ontologicamente unidos e cujo uso é inseparável do seu ser”, comenta Ellul. O que se desprende das teses do duplo uso é que a técnica pode ser liberada pelo usuário de sua idiossincrasia, de seus fundamentos, e que as calamidades que dela se derivam são exclusiva responsabilidade do homem. A questão central, continuava o francês, repousa sobre o desconhecimento técnico e na confusão entre máquina e técnica. “Podem-se fazer diversos usos da máquina, mas só um é o uso técnico: a máquina não é a técnica, que é o melhor meio de fazer alguma coisa. A técnica é um meio, com umas regras do jogo, com uma ‘maneira de se servir dela’, maneira única, que não depende de nossa eleição porque não nos serviriam para nada a máquina ou a organização se não as utilizássemos como é devido”. Portanto, afirmar que se faz um uso indevido ou “ruim” de um meio técnico “significa que não se faz dele um uso técnico, que não se lhe faz render o que poderia render [...] o homem está situado perante uma eleição exclusiva, utilizar a técnica como se deve segundo as regras técnicas, ou não utilizá-la absolutamente”.[24]

 

De tudo o anterior se desprende que se quisermos possibilitar um “duplo uso” da técnica, deveríamos modificar sua estrutura, ou seja, alterar radicalmente sua essência técnica, o que seria um perfeito absurdo. Obstinar-se em sustentar a existência de usos a gosto do consumidor é abraçar a fraude fundamental.

 

A opressão técnica deriva de uma relação complexa e problemática entre o homem e suas invenções. Sem um esforço por tentar prever, ou pelos menos antecipar imaginariamente, os resultados de uma determinada inovação técnica, sua aplicação introduz um elemento de incerteza que nos condena à expectativa e a os imponderáveis. E isto porque em determinados campos de inovação a vontade humana não intervém mais que como um impulso cego que não questiona nem o meio nem a finalidade. Certamente, uma operação técnica já entranha em si o resultado, o determina, exclui o “duplo uso”, e essa operação repousa sobre coordenadas mentais e materiais sedimentadas num período de tempo dilatado que não podem ser modificadas pela livre ação dos indivíduos. É a própria estrutura a que determina o uso que se fará de uma tecnologia, e determinará de igual modo a subjetividade do usuário, posto que enquadra a ação dos indivíduos. Uma tecnologia assentada se converte em nosso ponto de ancoragem mental e prático, cria marcos de referencia, modifica o ambiente ao que se incorporam, e transforma as representações coletivas. Não há uma sociedade sem computador e a mesma sociedade com computador; há uma sociedade pré-informática, e uma sociedade pós-informática.

 

Portanto, voltando ao mundo cibernético, seja qual for o uso que fizermos da Internet esta sempre limitará a experiência e atomizará os indivíduos, apesar da cantilena apologética em sentido contrário; imporá um novo sentido à existência dependente de um artefato eletrônico; e mutilará sensorialmente, já que por muito “interativa” que for uma tela, sempre privilegiará a vista e o ouvido em detrimento do resto de sentidos. A intuição, a percepção, o olfato, a sensualidade, não têm cabida no mundo paralelo e irreal da virtualidade. De modo análogo, a limitação da experiência acarreta uma perda irreversível de habilidades que em outros tempos serviram para uma tarefa tão banal e sem importância como a de preservar a espécie. É risível afirmar que a experiência possa ser adquirida perante um polo emissor de raios.

 

Desenvolvida como instrumento de transmissão instantânea de informação pela “inteligência militar” (aberrante abuso da linguagem), nem a Internet, nem nenhum outro artefato, pode obedecer a outro fim que àquele que está inscrito em seus meios. Não por comum e estendida essa confusão entre fins e meios deixa de ser um dos absurdos mais catastróficos em que se amparam aqueles que muito comodamente se auto dispensaram da enfadonha tarefa de pensar.

 

Expressão acabada do velho sonho do capitalismo de encolher o tempo para reduzir ao mínimo o intervalo de retorno do capital, em outras palavras, de pulverizar os aspectos físico-temporais que dificultavam a acumulação acelerada de lucro, o “espaço virtual” foi ideado para o imediato, aponta ao evanescente e o fulgurante, ao lampejo, a não deixar marca. Em nenhum caso surgiu de uma preocupação com a curiosidade intelectual, com a profundidade do saber ou com uma formação espiritual e política superior.

 

Em uma respeitosa homenagem ao universo dos livros, Alberto Manguel resume bem a essência do virtual:

 

Informe como a água, vasta demais para que nenhum mortal possa apreendê-la, a Rede tem excepcionais qualidades que nos permitem confundir o inapreensível com o eterno. Como o mar, é volátil: o setenta por cento de suas comunicações duram menos de quatro meses. Sua virtude (sua virtualidade) implica esse presente constante que para os eruditos medievais era uma das definições do inferno. Alexandria e seus eruditos, pelo contrário, nunca confundiram a verdadeira natureza do passado: sabiam que era a fonte necessária de um presente sempre mudável em que novos leitores estabeleciam conversação com velhos textos que se renovavam no processo de uma nova leitura.[25]

 

Mas entremos no território da fábula e ignoremos por um instante que o ciberespaço fabrica mortos viventes em série, que gera seres desorientados e letárgicos, etc., e concedamos crédito a essa fantasia que admite um “bom” uso. Em que consiste esse uso “positivo” segundo seus panegiristas? Basicamente, na possibilidade de dispor de um enorme reservatório de informação em “tempo real”, facilitar o acesso a todo o conhecimento acumulado pela humanidade durante séculos, e poder se comunicar de forma instantânea. Comunicação, conhecimento e informação: sobre esses três eixos giram todas as supostas virtudes da Rede.

 

Uma vez afirmado o anterior, as mistificações surgem de imediato. Comecemos pela informação. Em sua Arte de La Prudencia já reparava Gracián em que se “vive o mais de informação: é o menos o que vemos; vivemos mais de fé alheia; é o ouvido a segunda porta de verdade e principal da mentira”, e não temos motivos para pensar que as coisas tenham mudado senão para pior ao longo destes séculos. Resulta literalmente impossível que a realidade gere tal quantidade de acontecimentos significativos que se possam preencher diariamente folhas e mais folhas de jornais, de papel ou virtuais, e alimentar uma gigantesca quantidade de programas de radio e televisão, sem ter que fazer passar por notícia, novidade ou informação as coisas mais nímias e estúpidas, e inocular o desejo dessas naderias entre os indivíduos que as consomem como se fossem a própria realidade. Numa de suas entradas, Montaigne se lamentava já de que qualquer contemporâneo seu, “devendo possuir a alma cheia, a traz inchada; em lugar de fortificá-la, conformou-se com inflá-la” (Essais, I, XXIV).

 

Mas, sem dúvida, o equivoco mais dilacerante reside nesse truque de prestidigitação mediante o qual, igualando conhecimento e sabedoria, se insinua que com a virtualidade somos uma sociedade às portas da excelência intelectual. “Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?/ Onde está o conhecimento que perdemos com a informação?”,[26] se perguntava perplexo T. S. Elliot, numa década em que a avalanche cibernética era ainda impensável. A cultura dominante parece ter esquecido que conhecer não significa, de modo algum, saber, e nenhuma injustiça faremos a seus ardorosos entusiastas “chamando-os amigos da opinião antes que amigos da sabedoria” (Platão).

 

Não estabelecendo “distinção alguma entre memória e entendimento” (Essais, I, IX), obviamos o fato de que saber não exige agitação e exposição permanentes, senão esforço e recolhimento; ocupando-nos “unicamente para encher a memória, deixamos vazios consciência e entendimento” (Essais, I, XXIV). “A faculdade de julgar está oca” (Essais, I, XXIV), e no mar de igualdade da Internet flutuamos sem critérios de diferenciação entre o supérfluo e o importante, entre o anedótico e o essencial. A Rede criou um novo marco cognitivo que condicionou todo o processo de aprendizado e impôs um novo paradigma epistemológico em que as tradicionais aventuras do espírito que exigiam a mobilização constante da vontade, a inteligência e a memória num marco de lentidão, estão sendo supridas por uma habilidade mínima no uso de um mouse e um desejo irreprimível de aprender se “divertindo”.

 

O fato de que o novo Oráculo de Delfos, a Wikipédia, que segundo um reconhecido linguista é “muito melhor do que a Enciclopédia Britânica” devido ao “hipertexto”, contenha o triplo de páginas sobre calamidades lastimosas como Ivete Sangalo, Shakira, ou Justin Bieber, por citar alguns dos milhões de exemplos disponíveis, que sobre Scarlatti, Corelli, ou Pergolesi, ou que quintuplique a “informação” em relação a Marsílio Ficino ou Petrarca, será para quase todos prova de que essa é a natural proporção de suas respectivas valias, e o metro com o que medir sua transcendência. “Deve prescindir-se de tudo o que não for proveitoso” (Essais, I, XXV), sentenciava Montaigne; mas se mesmo assim o aluno preferir a divagação anestesiada e a dissipação, a única alternativa é que o “preceptor o estrangule quando ninguém lhe observar, ou que lhe coloque de aprendiz na confeitaria de alguma cidade”; o conselho do francês conduziria hoje à sanção do assassinato em massa, ou à muito mais agradável superprodução de bolos.

 

Segundo o linguista mencionado, qualquer leitor digital é capaz de estabelecer contextos sem maiores problemas graças ao “hiperlink”, (que termo risível!) “desde que ele tenha discernimento e uma educação à altura”; questionado sobre se realmente o nó górdio não residiria precisamente ai, na impossibilidade de se orientar entre tanta dispersão, o reputado especialista se apressa a afirmar: “a educação é um assunto à parte”. Eis aqui uma prova exemplar do argumento do “duplo uso” (só quem está educado usa corretamente), mas também do fato de que não são unicamente as novas gerações as que habitam no limbo, senão de que compartilham essa região com uma legião de intelectuais e especialistas em charlatanearia, mistificação e irresponsabilidade. A educação é “um assunto à parte” de que? Da existência? Eixo fundamental da vida social contemporânea, a informática não tem um impacto extraordinário na educação? Não é a cultura virtual a grande pedagoga dos jovens de hoje?

 

No século XVIII, Diderot, num panegírico de Voltaire, defendia uma essência universal e duradoira da função educativa. “No que diz respeito da educação pública, não há nada de variável, nada que dependa das circunstâncias: o fim será o de todos os séculos: fazer homens virtuosos e esclarecidos”. E a continuação desmascarava a torpe ilusão de crer que a sabedoria podia ser adquirida sem um processo inesgotável e permanente de estudo:

 

Que erudição não encontramos em Homero e em Virgílio! Quanto não deveram estudar antes de escrever [...] O que distingue Voltaire dos nossos jovens literatos? A instrução [...] A finalidade de uma escola pública não é fazer um homem profundo num área qualquer, mas o de iniciá-lo num grande número de conhecimentos cuja ignorância o converteria num homem prejudicial em todos os estados da vida, e mas ou menos vergonhoso em outros muitos.[27]

 

Expostos permanentemente à intempérie do mundo virtual, excluímos as margens de sombra necessárias para a meditação e a reflexão, e entre o estrépito e a velocidade apenas conseguimos escutar nossa própria voz.

 

É preciso reservar um fundo que nos pertença por inteiro, no qual possamos estabelecer nossa liberdade verdadeira, nosso principal retiro e solidão. Nele precisamos procurar nossa ordinária manutenção moral, tirando-a de recursos próprios, de tal forma que nenhuma comunicação e influencia alterem nossos propósitos [...] Temos uma alma capaz de se desdobrar sobre si mesma; ela sozinha é capaz de se acompanhar. (Essais I, XXXVIII)

 

Goya, Los Caprichos, 39, Al igual que su abuelo (El Prado, 1799)

 

Em todo caso, porque os jovens haveriam de escolher o caminho tortuoso, demorado, e exigente que conduz ao “palácio da sabedoria” (Blake) quando as novas tecnologias lhes poupam da ingrata tarefa de pensar?