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01

Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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Ainda nas primeiras décadas do século passado à pergunta: “Que tipo encarna o espírito das massas modernas?”, o filosofo alemão Hermann Keyserling respondia sem duvidar:

 

O motorista. Ele é o protótipo desta era das massas, não menos que para outros tempos era o sacerdote, o cavalheiro, o gentil homem. O motorista é o primitivo tecnificado. A atitude é muito próxima ao sentido da orientação do selvagem; a técnica por si mesma é evidência; desperta no homem que é dono dela [...] sentimentos de liberdade e poder.

 

E Ellul, abundando nessa imagem, concluía que numa sociedade lançada a toda velocidade, os reflexos, e não a reflexão, constituíam a única alternativa de salvação para os motoristas. Circulando em alta velocidade a reflexão, que exige um tempo de avaliação de possibilidades que a inércia do veiculo não concede, condena à catástrofe; os reflexos, porém, são fruto do acondicionamento técnico, da pericia treinada em situações limite: eles garantem a possibilidade de continuar na corrida.

 

Em consequência, a vertigem tornou-se o único revulsivo contra si mesma. “Indo em alta velocidade, ultrapassando aos outros, tem-se uma sensação ilusória de poder e de domínio sobre o mundo, obtêm-se uma vitória – imaginária, com certeza – porque se ganhou tempo, e talvez também pelo risco que se correu com a morte”.[14] Quem tiver pegado alguma vez um ônibus urbano entenderá perfeitamente o estímulo criminoso que a ocasião de beirar o perigo e de dispor de poder sobre a vida e a morte de outros constitui para os motoristas, esses seres sacrificados de maneira inútil em deslocamentos absurdos, incessantes e envilecedores. Unicamente correndo ao vazio o espírito parece experimentar já alguma emoção.

 

É a mesma necessidade paranoica que encontramos na demanda de práticas de risco ou desportes sem maior atrativo que o de sair deles com vida; mas está presente também em quase todos os âmbitos da existência: viagens relâmpago, comidas furiosas, conversas evanescentes, amores fugazes. Se “o tempo é o único capital das pessoas que possuem como única afortuna sua inteligência” (Balzac), e ninguém tem tempo para viver mais devagar, a que ostracismo teremos condenado à inteligência?      

 

Viver rápido significa consumir de forma constantemente acelerada tanto mercadorias, relações ou pseudo-experiências, quanto se submeter à ditadura das novidades. No seu blog vegetal Montaigne denunciava essa “paixão ávida e faminta de novidades que nos leva com tanta indiscrição quanto impaciência a deixar tudo de lado por conversar com um recém vindo” (Essais II, IV).

 

Hoje esse desespero pela novidade não se centra unicamente no plano da conversação, mas se dramatiza no cenário do imaterial, numa estonteante multiplicidade de telas. Subidos num carrossel enlouquecido os jovens cada vez mais perdem o contato com a realidade, e nas molestas ocasiões em que têm que compartilhar o mundo físico com seres de carne e osso surgem qual ciborgs munidos de telefones celulares, MP4, Ipods, iPads, computadores, fones de todos os tamanhos e cores, e o resto da infinita quinquilharia colorida com a que alimentam um solipsismo realmente aterrador.

 

Se Montaigne propunha abandonar a “acostumada comparação entre a vida solitária e a vida ativa” (Essais I, XXXVIII), hoje essa discriminação carece totalmente de sentido, posto que ambas as categorias sucumbiram à vita ocupadíssima. Não tratamos mais com seres com ocupações, mas com seres terrivelmente ocupados: espíritos apresados em fazer mil coisas ao mesmo tempo, e coisas tão indiscutivelmente impostergáveis como revisar a cada trinta segundos a conta de Facebook, descarregar o último aplicativo de qualquer inutilidade, atender ao telefone, mandar um sms à prima que está no quarto de ao lado, pendurar as últimas fotos do cachorro soprando as velas da festa do seu aniversário, atender ao telefone, responder indignado ao comentário do colega do escritório reclamando do pênalti não cobrado no último jogo de solteiros contra casados, atender ao telefone, dar uma força no vídeo da vovó levando um tombo e quebrando as pernas para que atinja o trending topic da semana, atender ao telefone, entrar no mail, atender ao telefone, etc...

 

Intensos, móveis, precipitados, desenfreados e insubstanciais, nossos contemporâneos se tornaram uma espécie de zumbis em série presos de urgências que oscilam entre o grotesco e o dramático; ávidos de novidades, não se importam o mais mínimo com o grau de imbecilidade destas, elevadíssimo por sinal, ou com a natureza de sua nocividade. George Simmel afirmava quase um século atrás que

 

a ausência de algo definitivo no centro da vida empurra a procurar uma satisfação momentânea em excitações, sensações e atividades continuamente novas, o que nos induz a uma falta de quietude e de tranquilidade que se podem manifestar no tumulto da grande cidade, na mania das viagens, na luta impiedosa contra a concorrência, na falta específica de fidelidade moderna nas esferas do gosto, os estilos, os estados de espírito e relações;[15]

 

que pensaria o sociólogo alemão destes tempos digitais e da sua devoção pelo fugidio?

 

Se concordamos com que “onde queira que a alma está ocupada, toda ela é absorvida” (Essais I, XXXVIII), deveríamos nos questionar também se, em nossos dias, mais do que absorvida, a alma não se encontrará simplesmente triturada quando está ocupada em mil coisas simultaneamente. E, ainda mais, não deveríamos inquirir se, do ponto de vista antropológico, nossa equipagem sensorial está dotada para embarcar-se em mil tarefas ao mesmo tempo sem ter que pagar o preço da dispersão crônica e a aniquilação da vital capacidade da atenção?

 

Goya, Los Caprichos, 3, Que viene el coco (El Prado, 1799)

 

Dos efeitos da ansiedade algo vamos sabendo quando observamos a angustia vital dessas criaturas que, qual horrendo castigo bíblico, ficam “fora do ar”, e sentem como um peso superior a todas suas forças a lentidão asfixiante da passagem das horas. Quem quiser conseguir a obediência canina de uma criança não deve apelar mais à ameaça do velho do saco; basta com insinuar um corte na conexão à Internet. Se o castigo se prolongar mais de vinte y quatro horas, os distúrbios podem ser de tal natureza que seria recomendável que os pais se dirigissem ao zoológico mais próximo para tentar alugar uma jaula livre. Porque, depois de tudo, qual desses adultos prematuros educados no espaço virtual não manifestaria agudos transtornos para adaptar-se a uma realidade física real? Em que ocupariam seu tempo se nem sequer sabem brincar de pique – esconde? E onde brincariam essas crianças hiper-excitadas, com alucinantes quadros clínicos de estresse, que garantem a existência de um enxame de psicólogos infantis, terapeutas, e assistentes sociais? Na rua? Mas, em que rua se essas atrocidades que chamam de cidades já não têm ruas, se são domínio incontestável do terror urbanístico e automobilístico?

 

Raros são os jovens que conseguem acumular tempo para se desenganchar do ritmo frenético cotidiano para criar um espaço pessoal em que poder refletir sem estrondo. “Agregarei que os ócios / aproveitar não sabendo, / nem uma hora com vós a sós / podereis nunca manter”;[16] e fugindo desse modo acabarão por habitar numa esquizofrenia permanente.

 

Obras de arte eternas, como uma cantata de Bach, um madrigal de Monteverdi o um lieder de Schumann, demandam um tempus que os atordoados cibernautas (que nome ridículo!) desconhecem e que experimentam como um calvário, posto que se acomodaram à fadiga rítmica do pop, do rock, do hip-hop, à brutalidade misógina do funky, e à indizível estupidez de suas letras que degradaram de forma irreversível sua sensibilidade e sua razão. Em vista deste panorama, é absolutamente impossível duvidar de que quando forem tecnicamente viáveis as operações de redução de cérebro serão um sucesso estrondoso, e na fila de espera abundarão estes espécimes de catalépticos agudos. A final de contas, por que não liberar às articulações da pressão de carregar com órgãos inúteis?

 

Outra das funestas consequências da enlouquecida aceleração do mundo e da proliferação de máquinas que “conectam” é a tirânica proibição da melancolia. Agora já nem sequer podemos ter saudade porque junto com a consolidação do imediato e o peremptório veio uma intensificação artificial das relações.

 

Eu sei que a amizade tem os braços suficientemente longos para sustentar-se e juntar-se de um canto a outro do mundo [...] O regozijo e a posse pertencem principalmente à fantasia; esta abraça com ardor e continuidade maiores o que busca que o que toca. Contem seus diários entretenimentos e reconhecerão que se encontram mais ausentes de seus amigos quando estão ao seu lado: sua presença debilita a atenção e procura liberdade a seu espírito de ausentar-se constantemente e por qualquer causa. (Essais, III, IX)

 

Não é esse contato onipresente o que facilita a Internet, suprimindo a fantasia e o regozijo? Quem vai compor poemas falando da saudade dos amores ou os amigos ainda vivos? A quem morderá a melancolia quando num canto da tela aparece, sempre que o desejarmos, o objeto da mesma? A nostalgia, esse “filtro e veneno do que morreram outrora os amantes de lenda, e do que vivem hoje os últimos extraviados de amor neste século de descrença e lucro”, como escrevia o decadente Jean Lorrian, não nutrirá mais essa literatura de paixões excessivas. Definitivamente, chega de saudade.

 

Já só nos resta confiar na sobrevivência de uma cordura mínima que aconselhe mesclar extroversão com solidão, porque “quem só quer ter maré alta se expõe à rotura de um dique. Não podemos estar sempre isentos de dores, não podemos estar sem sombra, temos que aceitar também a melancolia. Também lá tem deuses”.[17]

 

***

 

Num dos fragmentos que se conservam de sua obra, Demócrito reconhecia que “é mister que o homem reconheça [...] que se encontra apartado da realidade”.[18] Interpretado literalmente, o aforismo parece reivindicar a necessidade de um maior rigor reflexivo dos homens como meio para evitar seu afastamento dos assuntos que eram essenciais, segundo os gregos, para a consecução da excelência moral e a virtude nos assuntos comuns.

 

Esse desejo refletia a existência de um modelo de homem e de sociedade, assim como de parâmetros que delimitavam o exato sentido dos limites. O homem como ser dotado de noûs, de razão, era para os gregos do período clássico a plataforma sobre a qual erigir um modelo comum de moral, um modelo que transitou entre trevas durante séculos para encontrar finalmente a luz com a redescoberta renascentista da antiguidade, um tempo em que os humanistas, retomando estes pressupostos, impulsionaram um ideário coletivo fundamentado sobre os mesmos padrões.

 

Num livro notável sobre as causas da hipnose coletiva que arrastou a grande parte do povo alemão a cooperar, ativa ou passivamente, com o regime nacional-socialista, Eric Voegelin relembrava esta tradição referindo-se a uma passagem de Os Trabalhos e os Dias em que Hesíodo afirmava que “é o melhor homem em todos os sentidos o que por si mesmo se da conta, após meditar, do que no final das contas será melhor para ele [...] mas o que nem por si mesmo se da conta nem escutando a outro o grava no seu coração, esse, em cambio, é um homem inútil”.[19] Para o filósofo alemão uma das causas fundamentais que levou os alemães a sucumbir ao regime nazista residia na exaustão desse modelo humano recuperado pela Renascença e projetado posteriormente pelo Iluminismo, o que somado aos progressos do niilismo e de uma fé teológica no destino técnico do ser humano, tinha propiciado a dissolução de uma ideia genérica do homem e de espelhos coletivos de conduta enraizados na tradição. Isso se traduziu num avanço irrefreável da estupidez, uma orfandade de referentes generalizada fruto da separação dos indivíduos com respeito à realidade. “A estupidez, escreve Voegelin, deve significar aqui que um homem, por causa de sua perda de realidade não está em posição de orientar corretamente sua ação no mundo que vive [...] esse stultus agora sofreu a perda da realidade e age com base numa imagem defeituosa da realidade”. Essa “estupidez”, sublinha o pensador alemão, não possui conotações injuriosas; constitui estritamente um “termo técnico para a análise da estrutura espiritual”, derivado do “vocabulário clássico e, na continuação do vocabulário clássico, do vocabulário moderno da análise social”.

 

A perda de contato com a realidade, gestada pela supressão parcial da experiência, veio acompanhada de um significativo deterioro da capacidade expressiva, posto que é impossível dispor de palavras para caracterizar fragmentos de mundo que nos são alheios. Em consequência,

 

paralelamente à perda de realidade e à estupidez sempre há o fenômeno do iletrado [...] um homem pode saber ler e escrever no nível primário, mas pode ainda ser um cara completamente estúpido que não sabe expressar-se em relação a raios extremamente amplos de realidade, especialmente quanto a matérias de razão e do espírito, e é incapaz de compreendê-las [...] então há iletrados entre pessoas que são capazes de ler e escrever muito bem, mas que, assim que se trate de compreender um problema da razão ou do espírito, ou questões acerca de agir corretamente e da justiça, são completamente incapazes de compreender, porque não conseguem atingi-los. Ai a perda da realidade pode ser notada, já que então se expressa no domínio da deficiente língua.[20]

 

As teses de Voegelin convergiam na conclusão de que sem uma sólida capacidade de discernimento, nosso poder de seleção se vê poderosamente reduzido, ou inclusive suprimido, o que elimina paralelamente nosso senso crítico para avaliar as situações políticas ou morais que surgirem; e nesse cenário temos que encarar inermes o abismo. Não obstante, não temos nenhum direito a ser estúpidos.

 

Goya, Los Caprichos, 55, Hasta la muerte (El Prado, 1799)

 

Ora, como não ver que nossa cultura digital cavalga ao galope rumo a essa estupidez que deplorava Voegelin? Como negar que o que caracteriza a sociedade virtual é uma proliferação de “estúpidos” incapazes de tomar contato com sua realidade? Como pretender que uma população que se desliza por um plano desdobrado do mundo material permanentemente excitado com trivialidades e insignificâncias possa dar resposta adequada às questões transcendentes da existência se nem sequer consegue imaginá-las? Se “a alma se perde quando não tem um fim estabelecido, pois, como costuma ser dito, estar em todas as partes não é encontrar-se em nenhuma” (Essais, I, VIII), não são as novas gerações crescidas sob as imposições da tecnologia digital magníficos exemplos de “almas perdidas”?

 

É surpreendente comprovar como os contínuos atoleiros criados pela tecnologia não constituem um convite ao questionamento nem ao debate sobre suas consequências, senão desafios que devem ser superados mediante mais tecnologia; círculo vicioso, corrida sem destino, agitação sem propósito de uma humanidade que considera qualquer limitação não forçada como uma injúria a seu potencial de criação material. Esse delírio chegou tão longe que nos ocultamos inclusive nossa condição de mortais: cirurgias “estéticas” (????), produtos antienvelhecimento (!!!!!), prolongação mecânica de vidas inertes e defenestradas, exaltação paranoica do jovem, perda da tradição do velório no domicilio familiar, abandono do respeito pelos idosos, considerados mais uma carga que uma fonte de experiência acumulada, bombas “inteligentes” (???!!!) que fulminam desde a distancia, ocultando o horror com a higiênica precisão da tecnologia bélica, etc.

 

A caducidade do corpo como vergonha, nossa exígua longevidade como humilhação; o ser humano é defeituoso, mas a técnica nos redimirá de nossa mácula original. “Como sempre desejas o que não tens e desprezas o presente, a vida escorreu incompleta e sem deleite, e sem esperá-lo apresentou-se a morte em teu leito, antes que pudesses partir satisfeito e saciado de tudo”.[21]