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Marzo de 2013

Crisis y Crítica - O fundo da virtude

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Não nos deteremos mais em comentar o resto de âmbitos que proclamam, em maior ou menor medida, sua hostilidade ao sistema. Limitar-nos-emos a assinalar que seu denominador comum é a caducidade, a parcialidade, o desajuste com a realidade, e, principalmente, o pânico a ser tomados por raivosos radicais. Concluiremos, nao obstante, este varrido panorâmico com uma última categoria, definitivamente afastada dos rigores militantes: é a de aqueles acadêmicos que conseguiram sobreviver intelectualmente nesses túmulos funerários do pensamento que são as universidades, e manifestando altruístas inquietudes sociais, viram-se na desagradável, mas necessária, obrigação de desautorizar os críticos sociais mais exagerados.

 

Assim, materialistas francamente inteligentes como Paolo Rossi, se sublevam contra os apocalípticos inimigos da civilização da máquina:

 

Creem de verdade e intensamente no Ocaso da Civilização, identificam a Natureza com a Inocência e teorizam a sua Sacralidade; fazem um uso contínuo e cotidiano de máquinas da mais variada espécie e natureza e ao mesmo tempo detestam tudo o que é artificial, odeiam a indústria, a química, a tecnologia, a modernidade;mostram-se mais sensíveis aos massacres de filhotes de focado que a crianças africanas ou brasileiras; são hostis ao presente em nome de uma inédita mistura de nostalgia pelo passado e expectativa sobre o futuro; associam, numa alarmante fusão, tradicionalismo de direita e utopismo de esquerda, comportamentos nostálgicos e futurísticos; veem a Natureza como uma Deusa Amiga e o homem como o Inimigo dessa benevolente Divindade; defendem o localismo e zombam do universalismo; aderem enfim (em muitos casos) a posições de radical anti-humanismo sem nunca terem lido nem Spengler nem Heidegger, sem nunca ter ouvido falar deles.[8]

 

Goya, Los Caprichos, 50, Los Chinchillas (El Prado, 1799)

 

Nessa linha, a outros, como Ferrarotti, parece-lhes que “nas atuais lamentações da literatura catastrofista se respira o mesmo ar retórico que destilavam os hinos ditirâmbicos dos progressistas por vocação”, enquanto Bunge zomba do “lamento romântico contra a suposta maldade da tecnologia”. “A sedução do anti-industrialismo é perene”, sentencia outro crítico dos críticos, Adam Ulam; “mesmo nos países mais penetrados do ethos industrial, uma catástrofe nacional ou uma crise econômica ressuscitarão o sentimento anti-industrial, e o revestirão de novas e, sem dúvida, mais sofisticadas formas de protesto social e de teorias sociais”.

 

O historiador alemão Karl-Heinz Deschner, na introdução de um estudo muito educativo sobre a deliciosa história criminal do cristianismo, refletia sobre a muito estendida opinião de que criticar é muito fácil; ao menos isso afirmam os que, por “oportunismo, indolência ou por incapacidade jamais se atreveram a criticar nada em sério”. Não faltam os que pensam que criticar é uma atividade vil,

 

especialmente quando são eles os criticados, embora isto não o confessarão nunca. Muito pelo contrário, afirmam sempre que não têm nada contra a crítica, que todas as críticas são bem recebidas, mas, claro, desde que sejam críticas positivas, construtivas, e não negativas e deletérias. Entendendo-se sempre que a crítica construtiva é aquela que não aprofunda demasiado, no fundo, concordam conosco. Em cambio, julgam ‘negativo’, ‘estéril’, ‘condenável’, o ataque que aponta aos fundamentos com intenção de destruí-los. Quanto mais convincente for dito ataque mais se exporá seu autor a se ver denigrado...ou silenciado.[9]

 

Em consequência, avancemos já que não temos a menor intenção de fazer uma crítica “construtiva” ou “positiva”; e pretendemos menos ainda oferecer “alternativas” ou “soluções”. Quem quiser “alternativas” deve dirigir-se a quem as vende: banqueiros, presidentes de governo, altos burocratas, políticos, executivos de corporações, bufões televisivos, cantantes na moda, traficantes imobiliários, ídolos esportivos, formadores de opinião, crápulas bursáteis, dirigentes sindicais, jornalistas de culto, elaboradores de planos pedagógicos, escritores de autoajuda, ONGs, especialistas em marketing, agiotas, vedetes intelectuais, gerentes de toda laia, engenheiros informáticos, astrólogos, vendedores de carros, autoridades eclesiásticas de qualquer credo e demais administradores da morte cotidiana.

 

Por outro lado, deve ficar claro que num mundo sem escapatória, como o mundo foi e será sempre, em que estamos obrigados a existir, sem um grau elevado de assimilação ninguém, sem exceção, poderia sobreviver. Quem, numa sociedade que condiciona a supervivência a uma adaptação mecânica extrema, poderia se manter à margem desse condicionamento técnico? Qual seria a procedência desses recursos de autonomia pessoal que nos permitiriam abolir a dependência das máquinas, se todo nosso universo cotidiano está povoado de artefatos de cujo funcionamento ignoramos tudo, e sem os quais nossa existência seria literalmente impossível?

 

Em consequência, antecipemos que, como faz Rossi, atribuir falta de coerência a quem condena sua realidade pelo simples fato de viver nela e valer-se da técnica que deplora é um argumento tão oco e miserável como a falta de verdadeiros argumentos que encobre, que com frequência acabam abandonando o campo da crítica para derivar em histéricos ataques ad hominem. “Podem desejar-se tempos melhores, dizia Montaigne, mas não escapar dos presentes”. Um mínimo grau de adequação dos indivíduos à cultura de uma época é um requisito sem o qual a sociedade se desintegraria em pedaços; mas isso não implica necessariamente uma aceitação servil do dado, nem a reconciliação com o mundo. Nossa tradição exige, pelo contrário, um permanente estado de vigília crítica sobre nossas ações e sobre nossas instituições.

 

O que constitui um vício devastador para a vida coletiva não é a crítica feroz e implacável, mas sua ausência, instalar-se num torpor desmobilizador, forjar nossas ações na banalidade e a estupidez, dissolver o conceito de limite em prol de ridículas exibições técnicas, pular por cima de toda sensatez com o propósito de acumular artefatos que só servem para serem vendidos, ou desterrar a beleza e fazer do mundo um lugar tão indiscutivelmente feio que nenhum habitante de qualquer Câmara dos Horrores que se preze consentiria em morar nele.

 

Em outro tempo os literatos induziam a seus personagens a vender a alma ao diabo por algum motivo grave e transcendente como a imortalidade ou a glória; hoje somos mais prosaicos e a vendemos unicamente por dinheiro, mas, como no conto de Stevenson, não deveríamos esquecer que junto com a garrafa vem o diabo, e que este sempre exige sua parte.

 

Em Uma Descida ao Maelström, um dos maravilhosos relatos de Edgar Alan Poe que dão título às partes deste discurso preliminar, um redemoinho apavorante chegado de algum confim absorve a sua passagem todo aquilo que encontra em seu caminho. Essa “curva mortal que aponta ao abismo ou saca à superfície” é uma metáfora perfeita de nosso tempo. “Modelo de uma ameaça, escreve Ernst Jünger, que no meio da crescente turbulência, forma parte de nossa experiência cotidiana. A salvação sente-se como algo milagroso, mas a reflexão lúcida contribuiu a ela”. Eis ai onde reside, em definitivo, toda a questão social: recuperar a reflexão lúcida. Observemos mais de perto o que hoje a impede.

 

 

NUNCA APOSTE SUA CABEÇA COM O DIABO

2Por um recente livro sobre a vida e o legado da obra de Montaigne nos informamos de que o sublime francês foi o primeiro blogger da história, ou pelo menos isso declara a autora, mesmo que com “reservas”. Naturalmente, este tipo de afirmações são meras frases de efeito e não devem ser levadas a sério; constituem uma prova da necessidade de promover livros que sem um extravagante bombardeio mediático poucos comprariam. Mas também são esclarecedoras no sentido de que constituem um espelho dos ressaibos da ideologia do progresso que ainda exercem um enorme poder de sedução; na verdade, a frase pode ser traduzida assim: Montaigne se adiantou ao seu tempo e antecipou o nosso, um tempo de exposição pessoal, de abertura da intimidade, de expansão ilimitada do eu. O futuro acariciado pelos antigos era isto que nós desfrutamos.

 

        Em todo caso, para examinar o mundo sem ceder a suas ciladas Montaigne constitui um excelente ponto de partida. Comecemos, então, usando-o como fio de Ariadne, do mesmo modo que ele usava aos clássicos greco-latinos, para ver que tinha a dizer aquele espírito superior desde a solidão de sua torre que nos possa ser útil para desacreditar nossa lastimável realidade.

 

Antes de nada, devemos resenhar que não é verdade que nosso blogger favorito fosse o primeiro em falar de si mesmo. A tradição de falar sobre si mesmo é muito mais antiga que Montaigne; aparece com os poetas clássicos, que propalam seus males de amor e repartem seus conselhos àqueles a quem a vida deparar situações de sofrimento similares. Catulo, Propércio, Horácio, mas também os latinos Cícero ou Sêneca, em outro registro, erigiram suas obras como uma espécie de manuais de vida fundados na sua experiência. Infelizmente para sua pseudo-biógrafa, o próprio Montaigne a desmente: “De que fala Sócrates mais amplamente que dele, e aonde encaminha a conversação de seus discípulos senão a conversar sobre suas respectivas pessoas?”[10]

 

Esclarecido isto, é verdade que Montaigne opta pelo retiro do mundo e nessa esfera de silencio e solidão em que os dias começam a desfilar idênticos, abraça a ideia de registrar por escrito as lições extraídas de sua própria experiência com o objetivo de alcançar a excelência na sempre escorregadia arte de viver. “Faz já alguns anos que não tenho senão a mim mesmo por objeto de minhas reflexões, que não examino nem estudo outra coisa que minha própria pessoa, e se às vezes meus pensamentos e olhares se dirigem a outro lugar o faço unicamente por aplicá-lo sobre mim ou em mim, para proveito pessoal” (Essais II, VI). O resultado desta visão introspectiva foi uma grandiosa obra coral que adquiriu imediatamente a categoria de clássico, e que da mesma forma que os antigos em que ele se inspirava, constitui uma referencia iniludível para todos os que colocam a reflexão e a sabedoria no centro de suas preocupações.

 

Porém, equiparar a descida de Michel de Montaigne às profundezas da alma para extrair critérios pelos que guiar a conduta com esses limbos virtuais nos que pelo módico preço de um elementar conhecimento técnico qualquer um pode criar uma altar consagrado a sua maior glória pessoal é um mal-entendido de dimensões faraônicas, no melhor dos casos, e no pior, uma boutade sem fundamento; sem descartar que seja ambas as coisas ao mesmo tempo. A explicação é simples: um mundo que oculta sua ausência de sentido no desenvolvimento frenético da técnica e na reprodução maníaca de máquinas de toda índole não pode se permitir o luxo de desacelerar a marcha, condição indispensável para o exercício do pensamento reflexivo.

 

Se Montaigne procurou abrigo fora do mundo era porque no século XVI um indivíduo ainda podia ocupar margens de existência relativamente autônomas, desde que a fortuna pessoal o propiciasse e a situação política não o impedisse. Hoje, a procura desses espaços é uma quimera, já que, como assegurava agudamente Anders nos anos cinquenta, o mundo real se volatizou e aparece agora como sombra, como imagem: em outras palavras, como fantasma.

 

Os poucos que ainda optam por um retiro no campo, ou pelo que sobrou dele, arrastam trás de si todo o estrépito de um mundo que irrompe através da tela a cada golpe de tecla. Nessas condições, e sem notícias da ekklesia, a esfera do comum, a delimitação entre o público e o privado torna-se difusa e indistinguível. A intempérie do público, invadido violentamente pelo privado, deixou sem vigência o epicúreo “não faças nada na vida que te cause medo se teu vizinho viera sabê-lo”.[11] Seja o que for, hoje teu vizinho acabará sabendo.

 

Mas há um aspecto ainda mais importante que impossibilita a emulação do pensador francês: as novas gerações plenamente digitais parecem ter-se desfeito até extremos surpreendentes do sentido do pudor e ignoram por completo o recato mais elementar. A possibilidade de permanecer constantemente à vista dos outros desembocou numa explosão de exibicionismo, e do seu contrário, o voyeurismo, que favoreceu o desenvolvimento de uma espécie de imperativo social: a exposição e a visibilidade pessoal sem interrupções. Não era isso precisamente o que Montaigne tinha em mente quando se decidiu a descrever abertamente sua experiência: “Não relato meus gestos, mas meu individuo e minha essência. Entendo que é indispensável a prudência no juízo de si mesmo”. Naturalmente, seu tempo não viu com bons olhos essa infrequente tendência individual à extroversão, e percebendo que lhe seriam pedidas algumas explicações, se apressou a contestar a seus futuros críticos. “Parece-lhes que em falar de si próprios se experimenta complacência; que observar e sondar sua alma é querê-la com excesso; mas este excesso nasce só naqueles que se observam superficialmente” (Essais II, VI).

 

Basta uma rápida olhada em qualquer página de Facebook ou similares para descobrir que os frequentadores da realidade virtual são a quintessência da superficialidade e da complacência, e que abundam nelas a autopromoção, a banalidade, um narcisismo fora de controle, e uma quantidade surpreendente de propósitos turvos, esporeados pela impunidade e o anonimato covarde. Nada disto deveria resultar surpreendente numa cultura que procedeu à demolição de códigos de conduta fundamentados na estrita separação entre o oikos, o privado, e o agora, o público, propiciada principalmente por décadas de infinita perversão e embrutecimento televisivos. Assim, são poucos os que não estariam dispostos a se degradar até extremos lastimáveis com o propósito de aparecer um segundo nessa máquina de triturar carne humana que é a televisão, e são cada dia menos os que não se deixariam filmar vinte e quatro horas, inclusive nos momentos mais escatológicos, pela vã recompensa de serem reconhecidos nesses templos do exibicionismo e a egolatria que são os shoppings e as academias.

 

Desconhecem a grandeza porque procuram a fama; ignoram a glória porque aspiram à popularidade; jamais serão ilustres porque perseguem a celebridade; porque só anseiam o sucesso carecerão sempre de honor; nunca serão reconhecidos pela posteridade porque seu destino é a futilidade. “A fama ganhada com o talento não se perderá”;[12] mas que pode saber do talento quem vive para satisfazer as permanentes exigências de seu narcisismo? É possível alimentar “sentimentos grandes e nobres, quando não se faz nada que não for mesquinho e vil? Não; do mesmo modo que realizando ações belas e gloriosas não se podem ter sentimentos pequenos e mesquinhos. É a maneira de obrar o que da sua qualidade à alma: não pode ser de outra maneira”.[13] Mas como obrar de uma maneira bela e gloriosa sem ter sequer uma ideia aproximada da beleza e a glória, se nos assediam absurdos ardores sempre insatisfeitos?

 

É surpreendente, se maravilhava outro blogger coetâneo de Montaigne, o moralista Juan Luis Vives, “como a soberba humana e a ânsia de celebridade coletaram louvores e fama, não só naquilo que tem aparência de valor, ou de bem, mas no indiferente, no frívolo, no ridículo, no vergonhoso”. E tudo isso em alta velocidade.

 

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