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04

Enero de 2016

I - El mundo todo y uno - Manifesto autofágico

MANIFESTO AUTOFAGICO

Samuel Kruchin

 

 

ao achamento do Brasil
aos desinteressados por tudo,
às tentações

 

 

 

I
Somos pré-modernos, depois de sermos modernos. Não suportamos a indiferença ou a invenção da nossa própria diferença. Dissolvemos a modernidade no caleidoscópio de todos os ecletismos.
Autofagia : milagrosamente, silenciosamente, eternamente.
Para além do consumir-se, a congestão pós antropofágica do outro.
Digestão milenar de todas as seduções, de todos os orgasmos transoceânicos sob o manto tupinambá de Oswald de Andrade.
Boca arreganhada do Brasil, seu ser: Manifesto.
Última etapa de nossa revolução antropofágica, contra-teoria da cultura.
Somos por frações, aos pedaços. Só a autofagia nos une.
Condor metálico destruído nos picos nevados dos Andes. Toda esperança é a perna do companheiro de vôo.

 

II
Os algozes estão velhos. Vivemos a intimidade de uma ruína sem algozes. Sentamos no trono de nossa autonomia e não temos a quem acusar ou quem nos julgue.
Solidão autofágica: economicamente, socialmente, eternamente.
A rainha, mito coberto de esmeraldas entre restos calcinados de floresta, admira suas mãos, os dedos finos e macios, os braços longos; alisa com o olhar as pernas torneadas, e entre tremores as consome; pulsando ainda, lança o coração à terra; nariz aquilino, cabelos longos, densos, orelhas e pingentes sensuais, os lábios, os lábios, os lábios carnudos irresistíveis insinuam um sorriso: a devoração narcísica como instinto; a devoração sarcástica como futuro.
Todo triunfo é um crime. Toda vitória, uma alegoria.
Todo paradigma, lei autofágica, é um paradoxo: repentinamente surge o Modelo mas desconhecemos sua origem e não sabemos o que fazer com ele.
Não nos reconhecemos nem nos encontramos entre paradoxos. Somos um paradoxo volátil. Não temos lado, apenas dúvidas.
Só nos reconhecemos no reflexo negativo de nossa potência.
Autoflagelação dialética ausente de qualquer síntese.

 

III
Contra a memória. Invenção de nossa autoconstrução.
Demolir as vontades na terra do impossível.
Tudo o que cresce é o espanto, o inexplícito
E a nudez do mito: a surpresa, e as bucetas expostas nas praias
Toda memória é um fato crítico: a devoração comemorativa de todos os presentes e o desejo inconcluso do que não poderemos ser, e do que nunca será.
Só o esquecimento permanece.
E o achado.
Duvidamos também do mito, da fundação e da surpresa. Tudo é verdade, o fato e seu oposto até que possamos dissolvê-los nos compêndios científicos:
abstração de todas as dinâmicas do conhecimento e dos processos sociais até que não reste nada compreensível para que, enfim, triunfem os clichês, registrados e transformados em memória.
Somos feitos de um estado de inconsciência. Avançamos sob a neblina.
Nossa virtude é o silêncio, o submerso, rochas e sementes, que não reconhecemos como potência e que perdura.
Nossa virtude é o que em nós, não sabemos.
Autofagia: a impossibilidade da potência como estado de consciência.

 

IV
Devorar a própria consciência como lucidez- o imprescindível escuro onde se apoia e reconstrói a forma concentrada do Tempo e da História, o imprescindível ignorar-se que preserva a própria força.
Esta frase não faz qualquer sentido mas isto, tampouco, tem qualquer importância.
Dialética da esperança : autoconsumir-se como reinventar-se. Movimento inatingível pela mecânica autofágica, invisível, não exposto ao instinto devorador.
O perigo espreita na terra das coisas sem origem.
Pressuposto e consequência: o direito anárquico e a desrazão de dissolver-se.
Dissolução da potência e produção da inútil consciência iluminada de si.
Kultura:
Nela conhecíamos o vazio como oposição à densidade luminescente. Agora conhecemos a densidade do próprio vazio e a inaderência do tempo como espasmo.
Pós-Kultura : Reflexos, reflexos, reflexos, reflexos, reflexos, somente reflexos
Novesfora nada, canção universal.
Pela credulidade que recriará a utopia: a magia apropriada pela Política como ideologia e pela Burocracia como método está coberta por um sonho autoritário.
A Antropofagia não conheceu os banheiros gasosos de Auschwitz, os galpões gelados dos gulags, as vibrações térmicas de Hiroshima, as mulheres amarelas de My Lai, os homens pretos de Ruanda, as crianças brancas da Bósnia que não estavam na aldeia que Hans Staden contou.
Plenos do éter universal- matéria escura, contração e consumo do que atrai e devora, até reduzir-se à ínfima partícula para explodir em fragmentos irreconciliáveis.

 

V
Introjetamos o Paraíso e o consumimos como a nós mesmos. Como se fossemos natureza.
Espantados com o próprio rosto refletido na água dos rios calmos e com o soar dos búzios predizendo o futuro, refugiamo-nos, trêmulos, nas cidades. Por isso convertemos as águas em poços imundos e incendiamos as florestas para que restasse apenas a nudez orgulhosa e autóctone em terra salgada.
Devastar o mito paradisíaco.
Pós-cultura, duplo réquiem da natureza.
A Moréia. E o Abapuru.

 

VI
Tudo é mitificação em uma história sem personagens.
Contra o herói ambíguo : todo personagem é reflexo de nossa dúvida essencial. No altar só o inominado, o informe dessa história irracionalmente lógica, cabralina, diadorina, getulina, gênese de nosso espanto e de nossa tristeza: deglutimos o mistério, a consciência e o destino.
Contra os ídolos e os que acreditaram.
Nenhum herói resiste ao desmanche.
Somos inaptos ao previsível: preferimos a fatalidade, pela resignação, e a surpresa, como redenção

Repetir, Repetir. Repetir. Repetir. Repetir. Repetir. Repetir.
Por direito legítimo devoramos os navios negreiros e, no verão, os europeus e os americanos das terras frias. Assim criamos as cotas, alegoria da culpa que nunca tivemos, e a modernidade, alegoria da originalidade que pretendíamos ter: anticoloniais assistimos , via internet , a digitalização de nossas utopias .
Nossa originalidade, fruto da penúria, elege a penúria como totem, fruto de nossa originalidade convertida em signo. Rígida como um defunto, dejeto ressecado de nossa própria digestão.
Por todos os princípios , a fé. Pela revolução que não fizemos, o feriado nacional.
O país das certezas : livrar-se da própria pele. Cobra autofágica das matas atlânticas
Toda morte é uma derrota. E uma vitória.
A hiperconsciência, o método : infinitamente alerta e assistindo à plena devoração de si mesma.
e lançando, inerte e dissimulada, seu riso para a noite: Urutau