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Marzo de 2013

Mitología, Literatura, Arquitectura - Mito, saber popular e memoria colectiva

Não somente o passado vive na obra de Lina mas também tudo aquilo que não figura em nossas sociedades porque sistematicamente foi considerado como pano de fundo —a natureza, o silêncio e o vazio— ou foi descartado como inútil — os objetos perdidos, quebrados ou abandonados, o lixo. Lina Bo trabalha com o que tem as mãos, sem menosprezar nada do que encontra pelo caminho, vai reciclando técnicas, materiais e abrindo-lhes novas possibilidades de uso. Estas obras-narrativas aguçam os sentidos, assinalando estratégias de sobrevivência. A consciência deste respeituoso trabalho demonstra uma atitude tanto ética quanto ecológica. Esta arquitetura tira proveito dos imprevistos, dos azares, da precariedade e da falta de meios: éum procedimento muito próximo do fazer popular, da arte Kitsch, que trabalha na escassez de meios para obter uma máxima expressividade. De sua arquitetura surge uma potente crítica à sociedade deteriorada pelo consumo, esta mesma que agora dispõe da obra de Lina Bo Bardi ao seu bem entender. Sua atitude engajada estará em total acordo com a “poética da economia” defendida, anos mais tarde, por Flávio Império, Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, ao questionarem as promessas de uma modernização associada ao consumo.

 

 Lina Bo Bardi sentada em sua Cadeira à beira da estrada  (Foto: Arquivo Lina Bo e P.M. Bardi)

 

Mas aqueles objetos antropomorfos incrustrados no muro da Casa do Chame-Chame também podem ser relacionados à ex-votos, isto é elementos materiais que se oferece e expõe nas capelas, igrejas e salas de milagres em regozijo de um voto alcançado, da cura de uma enfermidade. Seu interesse por essa prática popular específica —comum no meio rural e também em algumas capitais, como Salvador— já podia ser percebido pelos vários artigos publicados na revista Habitat a respeito do tema durante o período em que Lina dirigia a revista. O ex-voto normalmente é ofertado para restabelecimento da saúde e por isso mesmo, têm cunho protetor. As promessas não visam apenas à proteção do homem, mas dos animais e até das plantas. Nos deparamos mais uma vez aqui com a preocupação de Lina em restabelecer "saúde" associada a uma reconciliação da arquitetura com a natureza. Nesta casa, isto ocorre por aderência: a natureza cola-se literalmente a ela. Mas, à diferença de uma "sala de milagres", os objetos da "Casa do Chame-Chame" não estão situados no interior de um recinto, e sim colocados do lado de fora da casa, conformando um cinturão em volta dela. Evidentemente estes objetos não são ex-votos mas metáforas que assinalam um estado de coisas, que Lina considera enfermo e que deve ser tratado, revertido. E a metáfora não é outra coisa do que uma prática de desvio; manipulação da língua relativa a ocasiões e destinada a seduzir, captar ou inverter a posição lingüística do destinatário.

 

O mito, bem como as artes figurativas e religiosas, ditas primitivas, interessam a Lina por suas possibilidades de autocrítica coletiva.Vê nelas uma força capaz de "curar" uma situação, aos seus olhos, enferma: frente ao Ocidente "canceroso" da civilização e do progresso é preciso resistir e, sobretudo, desafiar. O seu é um trabalho “tático”, no sentido definido por Michel de Certeau, isto é, que age dentro do "campo inimigo", "clandestinamente", procurando miná-lo e subvertê-lo em sua própria ordem.

 

A casa do Chame-Chame rende uma homenagem à cultura popular, ao mesmo tempo em que faz um manifesto contra a arquitetura heróica e universal. A singularidade desta casa descarrilha-a da linha de montagem e põe em manifesto a industrialização massificante vivida no Brasil de finais dos anos cinqüenta. Um trabalho que se realiza na escassez, desde uma low technology, um trabalho subversivo enquanto que subverte nosso modo habitual de ver as coisas. Um trabalho que golpeia a ordem do dia, indo em contra a idéia de desenvolvimento associada ao progresso.

 

Juan O’Gorman na sala de sua casa em San Jeronimo no bairro do Pedregal, México. Dioses y simbolos del Mexico antiguo, 1950. (Fonte: Catálogo da exposição Juan O’Gorman 100 anos. Temples, dibujos y estudios preparatorios. Conacultura INBA, Mexico 2005)

 

A força expressiva desta casa pode ser relacionada à Casa do arquiteto e pintor Juan O’Gorman em San Jeronimo no bairro do Pedregal, construída em torno a uma formação vulcânica, à imagem de uma gruta ou de certas arquiteturas e jardins “grotescos” da Renascença italiana, mas inteiramente recoberta de um mosaico, com imagens e elementos da mitologia pré-hispânica mexicana. A utilização da imageria mítica pré-colombiana já aperecia claramente no projeto realizado com Diego Rivera para seu estúdio, museu, templo Anahuacali (1944), e na Biblioteca Central da Cidade Universitária do México (1949-52), onde o edifício e sua fachada-mural assinalam em direção à uma arquitetura didática e simbólica, um manifesto estético que utiliza imagens mitos e ritos do passado pré-colombiano afim de recuperar uma consciência esquecida.

 

Juan O’Gorman, Casa San Jeronimo no bairro do Pedregal, Fachada vista desde o jardim. (Fonte: Ida Rodríguez Prampolini. Juan O’Gorman. Arquiteto y pintor. UNAM, México 1982)

 

Lina Bo Bardi, Diego Rivera e O’Gorman exprimiram-se claramente contra uma sucessão de modas e estilos internacionais, definindo um conceito de forma à partir de uma profunda reflexão sobre as memórias das tradições locais — sejam elas de raízes populares, pré-colombianas, indígenas ou africanas — enquanto única fonte de saúde e esperança para lutar contra os processos aculturativos. O’Gorman se posicionou claramente por uma arquitetura que sirva às necessidades espirituais e emocionais humanas, por “uma arquitetura que sirva ao homem” em contraposição a uma “arquitetura que sirva ao dinheiro”[37] . Nos mesmos anos em que O’Gorman concebe sua residência, ele afirmava que a verdadeira identidade mexicana residia na recuperção de um passado pré-colombiano perdido.

 

Juan O’Gorman, Biblioteca Central da Cidade Universitária do México, 1949-52  (Foto Olivia de Oliveira, 2009)

 

Destes mesmos anos data um projeto de Lina Bo Bardi praticamente desconhecido para o Mausoléu da família Odebrecht em Salvador, um pequeno cubo recoberto de vegetação, que não deixa de recordar a Casa do Chame-Chame. Lina tinha intenção de incrustar nos muros deste monumento os utensílios de trabalho utilizados pelos operários durante a obra, mas infelizmente isso não foi realizado, com a súbita saída de Lina de Salvador à principios de 1964 devido ao advento do golpe militar. Entretanto podemos imaginar todos estes utensílios : prumos, espátulas, colheres, metros, níveis, esquadros, serrotes, desempenadeiras, machados, marretas e tantas outras ferramentas de pedreiro incrustrados no mausoléu. Utensílios que dariam a marca do vivo a este monumento dedicado aos mortos. A imagen é idêntica ao muro da casa do Chame-Chame, muro-relato, muro-templo. Uma homenagem que Lina queria render ao trabalhador, à mão do homem, e que tomaria um significado particular neste monumento que, vale recordar, era destinado à família do proprietário de uma das maiores construtoras nacionais. Lina realizaria aqui uma inversão simbólica de valores, não apenas situando vida e morte lado à lado, mas tambén dissolvendo a hierarquia social entre patrões e empregados.

 

Lina Bo Bardi, Mausoléu da família Odebrecht em Salvador  (Foto: Carla Zollinger, 2009)

 

A riqueza e originalidade destas duas obras encontram paralelo em primeiro lugar junto ao já citado museu Anahuacalli de Diego Rivera e Juan O’Gorman, um paradigma da arquitectura latino-americana construído durante os anos quarenta, que assume o idêntico caráter de manifesto da Casa do Chame-Chame. Segundo Lopez Rangel, Anahuacali representa, “un temerario grito de protesta contra el funcionalismo mercantil, desnacionalizante y deshumanizado”[38] . Rivera havia concebido este museu como sua própria residência e também como sua própria tumba. Casa-mausoléu, casa-santuário onde sua obra, sua vida e sua morte se encontrariam. Também a Casa do Chame-Chame assume o caráter de casa-templo.